A montanha de moedas do Tio Patinhas, o pato mais rico do mundo, criado por Carl Barks em 1947, é resultado do trabalho duro como garimpeiro durante a corrida americana pelo ouro e do bom faro para negócios e encontrar tesouros. Fora das páginas dos quadrinhos, e guardadas as proporções, os caçadores de negócios (os chamados business hunter, na expressão americana) ganham domínio no novo cenário econômico. Com a baixa rentabilidade em aplicações financeiras, investir em produtos e empresas torna-se a melhor alternativa para fazer o dinheiro multiplicar. “Quem antes buscava retorno procurava o mercado de capitais (ações). Agora, precisa se arriscar mais e apostar em empreendimentos com boa perspectiva de crescimento. O business hunter faz esse intercâmbio”, afirma o professor Afonso Cozzi, da Fundação Dom Cabral (FDC).
O engenheiro Gilherme Emrich é referência em business hunter em Minas Gerais. Ele identifica a oportunidade e seu tiro é certeiro. Com o amigo cientista Marcos Mares Guia, criou a Biobrás na década de 1970, com fábrica erguida em Montes Claros (Norte de Minas). No fim dos anos 1980, a empresa se tornou a quarta maior produtora de insulina do mundo. Em 2000, a planta industrial foi vendida à multinacional dinamarquesa Novo Nordisk. Antes disso, porém, tirou dali a Biom ao transferir a tecnologia, patentes, pesquisadores e a conexão internacional para uma nova empresa, da qual ainda é dono. Nesse meio tempo, outra investida de sucesso. Em cooperação com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), criou o Miner, um site de busca vendido posteriormente ao UOL. E, dali, surgiu uma empresa, a Akuan, comprada mais tarde por nada mais nada menos que o Google.
Na década de 1990, criou a Fir Capital, gestora de fundos de venture capital, ou capital de risco. Na prática, um investidor participa de forma minoritária e temporária em empresas de tecnologia de ponta que precisem de recursos para se desenvolver. Depois que os objetivos iniciais são atingidos, a empresa é vendida e, embora os riscos sejam grandes, os ganhos podem ser compensadores. “A meta é captar recursos de terceiros e fazer um pool para investir em várias empresas”, afirmou Emrich. A estratégia dele é focar oportunidades por regiões geográficas. No alvo estão o vale mineiro da eletrônica, em Santa Rita do Sapucaí e municípios vizinhos (Sul de Minas), Recife (PE), Florianópolis (SC), São Carlos (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Brasília. “Só a Embrapa tem 1,8 mil doutores no Distrito Federal. É isso que nos atrai”, exemplifica. Além de parcerias para identificar oportunidades locais, Emrich criou uma rede de 22 business hunters no mundo. “Com a internet, ficou fácil operacionalizar tudo isso”, diz.
A Fir Capital tem disponível atualmente cerca de R$ 80 milhões para investimento. “A crise, em primeiro lugar, bateu no crédito. Gerou insegurança e ficou mais difícil captar recursos para nosso investimentos. Mas também criou oportunidades. Temos uma empresa de automação na área de mineração para redução de custo, que é a chave mestra das empresas agora. Por isso, ganhamos espaço. Outro ponto positivo é que o preço das empresas voltou para patamares acessíveis e paupáveis”, explica. Nesse cenário, s qualidade de um bom caçador de negócios é ter visão de mercado, relacionamento pessoal, ética e saber identificar um parceiro que partilha da mesma ideia.
De outro lado, empresas prestes a desistir de sobreviver na nova realidade econômica estão em busca de caçadores para socorrê-las. A avaliação é do presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap), Luiz Eugênio Figueiredo. “Muitas empresas não têm capital para crescer, sejam elas recém-nascidas ou desenvolvidas. A entrada de capital desses fundos passa a ser uma alternativa de capitalização”, afirmou. Segundo ele, a indústria dos fundos teria hoje cerca de US$ 27 bilhões de capital comprometido para investimentos no Brasil.
Gustavo Roque é outro business hunter mineiro. “Busco oportunidades junto a empresas pequenas e médias de fora do Brasil que não têm estrutura para explorar mercados internacionais. Com as dificuldades impostas pela crise, elas precisam mais do que nunca ampliar seus horizontes, trazerem novas receitas. Dessa forma, quando me apresento e mostro o potencial do Brasil, todas estão abertas e dispostas a buscar parcerias”, conta.
Fonte: Portal Uai