Engenharia nacional exige respeito
 
JANEIRO/2006
D S T Q Q S S

Engenharia nacional exige respeito

19/03/2016 09:31

Jornal Estado de Minas
Caderno de Opinião

Engenharia nacional exige respeito




Augusto Celso Franco Drummond
Engenheiro, presidente da Sociedade Mineira de Engenheiros

Publicação: 18/03/2016 04:00
Engenharia é arte. Pressupõe dominar e aplicar conhecimentos científicos e empíricos, aliados ao desenvolvimento de habilidades específicas, com o propósito de converter recursos naturais em formas adequadas (oferta de energia, construções, estradas etc.), que atendam às necessidades humanas. Por isso, exige alto grau de profissionalismo que só pode ser obtido por meio de uma formação acadêmica consistente, seguida de esmero na aplicação do conhecimento tecnológico e de uma postura ética no atendimento do interesse coletivo.

Não resta, pois, dúvida alguma sobre a amplitude e a importância da engenharia para que as comunidades, sobretudo dos grandes centros urbanos, tenham qualidade de vida e equidade, contribuindo inquestionavelmente para o desenvolvimento econômico dos estados federativos e do país. Contribuição essa que reflete diretamente na vida das pessoas, na criação de empregos e renda, e no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Mas, no Brasil de hoje, parece que tudo isso foi esquecido. A atual recessão econômica, agravada pela crise política, atinge em cheio a atividade de engenharia, ceifando oportunidades de trabalho, sem oferecer alternativa aos profissionais que chegam ao mercado.

Para alguns incautos, a atividade é vista hoje sob a ótica da ação condenável das empreiteiras envolvidas nos escândalos da Lava-Jato. No mundo dos negócios, dos interesses corporativos e estratégicos, equivocadamente, a engenharia é tratada como mercadoria de segunda linha, como uma moeda de troca. Se uma obra não for feita por um engenheiro, pode ser feita por outro qualquer (a qualificação não é relevante), ou, quem sabe, importando mão de obra dos franceses ou dos chineses, que também são bons nisso.

É deplorável (muito embora não nos surpreenda pela visão apequenada) que nossos governantes atuais não entendam a engenharia como atividade essencial e estratégica, a ser valorizada no planejamento dos empreendimentos e na consecução de objetivos sociais. Se é para ver a nossa profissão assim aviltada, é melhor que tenhamos a coragem de lutar para substituir no poder nossos despreparados governantes por meios democráticos e constitucionais.

Temos que dizer não à corrupção, temos que exigir planejamento nas atividades de governo e combater aqueles espertos empresários, que querem transformar a atividade de formar engenheiros em máquina de auferir grandes lucros financeiros (e com a ajuda do dinheiro público do Fies). Neste momento de fragilidade que o país e o setor de engenharia atravessam, é preciso que a atividade seja compartilhada entre profissionais que busquem o bem, que as soluções de cunho tecnológico sejam precisas e inequívocas, sem margem para irresponsabilidades como a queda de viadutos, rompimento de barragens e outras mazelas como de que assistimos em Minas Gerais.

Esses recentes e lamentáveis episódios, escritos por mãos movidas essencialmente pela obtenção de ganhos financeiros e/ou outras vantagens, típicas de nossa cultura e comportamento permissivos, têm que ter um ponto final. Até porque, em Minas Gerais, nem sempre foi assim. Em passado recente, em nosso estado, a ação de proeminentes engenheiros no exercício da profissão, da gestão pública e da política criou a tradição de ganhos significativos para toda a comunidade.

Vale lembrar as iniciativas marcantes e sobejamente conhecidas de profissionais como Lucas Lopes, Celso Mello de Azevedo, Aureliano Chaves de Mendonça, João Camilo Penna, Elizeu Resende, Alysson Paolinelli, Itamar Franco e tantos outros que souberam honrar nossa profissão. É preciso, pois, dar um basta ao atual estado das coisas. Não podemos perder de vista a nossa missão de usar a criatividade, a inventividade e o poder de transformação para o bem de todos. A engenharia nacional exige respeito!

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