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Em 2021, para onde caminha a engenharia?

A engenharia é um poderoso instrumento para promover o desenvolvimento sustentável de uma nação. Não é à toa que países emergentes investiram e investem fortemente no crescimento de suas engenharias. Nós fizemos a vários engenheiros, de diversas áreas, uma única pergunta: “Para onde caminha a engenharia?” Confira as opiniões:

Sempre em constante mudança

 Maria Thereza Ortiz

A engenharia sempre foi vista como sinônimo de desenvolvimento. Nosso maior propósito é resolver os problemas complexos do mundo aplicando a ciência de forma prática e econômica. Os engenheiros são os responsáveis pela criação de praticamente todos os avanços significativos desde os tempos pré-históricos. Na verdade, tudo, desde aviões comerciais, micro-ondas, e até mesmo o dispositivo em que você está lendo isso existe, principalmente, por causa de engenheiros.

Desde as primeiras aulas de cálculo, realizamos sinapses que nos habilitam para solução de problemas complexos. Essa habilidade, aliada a toda a tecnologia disponível hoje nos coloca na “crista da onda”. Não existe tecnologia sem ciência. Ambas andam lado a lado; o desenvolvimento de uma impulsiona o da outra, gerando a ciranda do conhecimento, da informação e do produto. Essa ciranda introduziu um ambiente virtual inteiramente novo e transformou nossa maneira de fazer negócio.

Hoje é, definitivamente, a era digital para os engenheiros. E acredito em duas capacidades chave para destravar essa era: capacidade analítica: habilidade de lidar com dados de vários tipos – vindos de fontes diversas, mas que estão dentro de um mesmo contexto – e estabelecer correlações; capacidade de trabalho coletivo; habilidade de trabalho em equipe, aprendendo e ensinando simultaneamente, porque não há mais um único skill capaz de absorver, interpretar e aplicar todas as alternativas possíveis.

A solução de problemas complexos hoje passa por compreender as tecnologias em desenvolvimento e se adaptar a um ambiente em constante mudança.

 Maria Thereza Ortiz é consultora em supply chain e transformação digital

  

 A hora e a vez da Tecnologia da Informação

Michael Rogana

A pandemia de 2020 deslocou as atenções do mundo para a área de TI (tecnologia da informação). Plataformas de reuniões virtuais, comércio eletrônico, delivery de restaurantes, aplicativos bancários, sistemas de monitoramento de temperatura e distanciamento social, e vários outros, foram potencializados pela pandemia.

A escassez de profissionais de TI gerada pela corrida digital inflacionou o mercado, hoje carente de mão de obra qualificada. E os reflexos não param por aí: as ações das empresas de tecnologia foram as mais procuradas e mais rentáveis nas bolsas de valores mundiais. No mercado local, brasileiro, os próximos anos serão de ascensão acelerada de investimentos na área de TI. Ademais, capitais ociosos serão cada vez mais direcionados a investimentos de mais alto risco, como em startups, ante um cenário econômico de juros reais negativos.

Michael Rogana é CEO do Grupo de Tecnologia TCS

 

Engenharia como sinônimo de inovação

Flávio Penido

Se, por um lado, 2020 nos trouxe a desagradável presença do coronavírus, por outro, nos proporcionou a oportunidade de colocar a engenharia, mais uma vez, a serviço da humanidade e do Brasil. Nas suas diversas especialidades, permitiu a continuidade da operação de minas, da indústria do cimento e do aço e as de transformação em geral. Foram momentos em que empresas deram suporte a seus empregados e também às comunidades vizinhas, além de manter, treinar e divulgar os cuidados necessários à manutenção dos empregos e, principalmente, a proteção das vidas.

A engenharia esteve presente, ainda, na construção civil, desenvolvendo obras de cunho social, incentivada pelo auxílio recebido do governo; no desenvolvimento de novos aparelhos hospitalares para atendimento às vítimas; na logística, que permitiu a importação rápida de equipamentos e, em breve, na distribuição das vacinas.

Engenharia e inovação caminham juntas, como sempre o fizeram.

Flávio Ottoni Penido é presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram)

 

Protagonismo renovado

Vinicio Stort

Atualmente, muitos descrevem a economia mundial como “frágil, ansiosa, não-linear e incompreensível” (ou Bani, que é o acrônimo do inglês). O crescimento de investimentos responsáveis e a transformação digital convocam nossos engenheiros para um protagonismo renovado. Investimentos responsáveis com foco em ESG (Ambiental – Social – Governança) são a nova realidade dos mercados financeiros globais. Em 2020, por exemplo, o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) obteve mais de R$ 500 milhões para a economia mineira junto a bancos de desenvolvimento do mundo todo. O foco em responsabilidade traz mais empregos e maiores salários. Por isso, os engenheiros devem introduzir a sustentabilidade e a ESG em suas formações.

Outro pilar significativo de mudança no mercado de trabalho é evolução de inteligência artificial (IA). Não estar atento à onda de digitalização e automação do processo decisório pode colocar um engenheiro fora do mercado de trabalho. Domínio de princípios de AI adiciona valor e, por conseqüência, coloca profissionais em níveis de empregabilidade e renda superiores.

Ambiente em transformação é o normal; estabilidade é anormal. Adaptação e criatividade são fundamentais para nossos engenheiros formarem um país protagonista em viabilizar a aplicação de investimentos responsáveis, construindo, assim, uma economia inclusiva, digital, de baixo carbono e honesta.

Vinicio Stort é diretor de Planejamento, Riscos e Operações do BDMG

A eficiência acima de tudo

Teodomiro Diniz Camargos

O enorme desafio em curso, colocado pela agenda 2030, cria caminhos definidores para a engenharia nas mais diversas áreas. Na engenharia civil o quadro não diverge, a começar pelos projetos que precisam trabalhar com inovação e tecnologia, utilizando novas ferramentas de forma a conferir ganhos de produtividade e sustentabilidade, passando pelo uso de novos materiais e aplicando métodos mais eficientes.

Nossos déficits são enormes, tanto pela necessidade de geração de emprego e renda quanto pelas demandas sociais, de bem-estar e moradia digna, que implicam em uma habitação de qualidade ligada a toda uma gama de serviços. Aqui, a engenharia precisa operar com excelência diante do marco regulatório do saneamento e das grandes necessidades nas cidades brasileiras, de lixo, água e esgoto tratados, que são essenciais para a manutenção da qualidade de vida, saúde e dignidade. Esses são déficits primários que precisamos solucionar para sairmos de vez do século 20 e entrarmos no século 21.

Outro ponto relevante é que a engenharia civil ostenta, enquanto setor, o título de “maior demandante de recursos naturais” e tem na mineração sua maior fonte de insumos, e essa tem grande comprometimento com o desenvolvimento local e regional. Prevê-se que em função da transição energética mundial a demanda por esses recursos naturais passará por expressivo aumento e, em seu inexorável atendimento, a engenharia terá importante papel nas práticas de exploração responsáveis, tornando-se significante de verdadeiro desenvolvimento sustentável local, regional, estadual e nacional.

A eficiência da engenharia será sempre a base para o sucesso da sociedade  no atendimento de suas necessidades de evolução e perpetuação.

 Teodomiro Diniz Camargos é vice-presidente da Federação das Indústrias no Estado de Minas Gerais (Fiemg)

Pela revalorização do engenheiro e da engenharia

Emir Cadar Filho

Nos últimos anos, a engenharia passou por uma total desvalorização, que se deu quando, nas licitações, passou a se buscar sempre o menor preço. Com isso, a capacidade técnica de nossos engenheiros foi sendo deixada de lado. Passamos a fazer o “copia e cola”, abandonando a criatividade, a inovação. Ocorreu a banalização da engenharia, que foi sendo deixada de lado também em função da judicialização dos projetos. Com isso, a engenharia passou a ser praticada com medo. A gente praticamente só colocava o preço.

Mas, felizmente, o mundo está mudando. E, nesse novo mundo, a área tecnológica se desenvolveu de tal maneira que está dando oportunidade para engenharia voltar a ser criativa e apresentar suas próprias soluções. Por isso, é chegada a hora de darmos a volta por cima. Essa retomada passa por voltarmos a ser um país onde as idéias criativas sejam valorizadas. Porque quanto mais criativas forem estas idéias, maior será a sua capacidade de atrair de investimentos.

A volta por cima passa também pela revalorização do engenheiro, pela inovação, pelo uso massivo das novas tecnologias. Este será o cenário no qual a nova engenharia irá florescer.

Emir Cadar Filho é presidente do Sindicato da Indústria da Construção Pesada no Estado de Minas Gerais (Sicepot-MG)

 

A retomada da logística e da infraestrutura

 Paulo Resende

A engenharia sempre acompanhou o crescimento de um Brasil de dimensões continentais. Ela alcançou notoriedade no desenvolvimento de projetos e no desenho de obras de grande porte; com instituições, empresas e engenheiros reconhecidos mundialmente. Talvez pelo fato de a engenharia, juntamente com seu imenso arcabouço estrutural, ter se tornado elemento tão importante para o desenvolvimento do País, movimentos oportunistas ganharam força, cujos interesses políticos sobrepuseram-se às necessidades de consolidação de uma logística eficiente.

A retomada da importância estratégica da engenharia na logística brasileira deve se dar a partir de três movimentos. O primeiro está no campo do planejamento de longo prazo. É preciso que o Brasil encontre uma forma jurídico-institucional que proteja os projetos estruturantes, fazendo com que a engenharia readquira o papel de elemento integrador da tríade “planejar, executar, medir”. Um segundo movimento está no fortalecimento das agências reguladoras, respeitando seu corpo técnico e seu caráter de instituição de Estado. Finalmente, um terceiro movimento é a formação de profissionais. A evolução curricular é primordial, alinhando-se aos avanços tecnológicos e às inovações na gestão de projetos que são inerentes à engenharia no Primeiro Mundo.

 Paulo Resende é PhD, diretor do Núcleo de Infraestrutura, Logística e Supply Chain da Fundação Dom Cabral

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