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Engenheiros debatem mudanças na formação profissional

Vistos em seu conjunto, os cursos de engenharia são os que mais atraem a atenção de quem está pretendendo ingressar no ensino superior no Brasil. De acordo com os números de 2019 do Censo da Educação Superior no Brasil, os 50 cursos de engenharia oferecidos no país disponibilizam 1,24 milhão de vagas. Isso equivale a quase sete vezes o total de vagas oferecidas, por exemplo, pelo curso de medicina, que também está entre os mais populares no país.

Entre os cursos de engenharia, há uma grande concentração da preferência. Cinco deles  respondem por 54% das matrículas. O campeão é a tradicional engenharia civil, com 275 mil matrículas, seguida por engenharia da produção (141 mil), engenharia mecânica (121 mil), engenharia elétrica (98 mil) e engenharia química (36 mil). Na engenharia, a diversidade na oferta de cursos passa longe da diversidade do preenchimento das vagas.

Além do gigantismo na oferta de vagas, há questionamentos quanto à qualidade do ensino oferecido. E polêmicas quanto aos limites do ensino de engenharia à distância, processo que a pandemia acelerou, mas esbarra em resistência por parte, principalmente das instituições publicas, mas também das particulares mais tradicionais.

 Reforma no ensino – As críticas quanto à qualidade do ensino apareceram durante o debate que marcou o encerramento do 92º Encontro Nacional da Indústria de Construção (Enic), há algumas semanas. Elas partiram do engenheiro civil Aécio Lira, ex-diretor da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e hoje um especialista no ensino da engenharia. Para ele, a valorização da profissão passa por uma reforma profunda do modelo de formação dos engenheiros vigente no país.

Segundo ele, há dois tipos de profissionais formados pelas faculdades de engenharia hoje no Brasil. Um é o daqueles que encontram-se no que ele chama de topo da pirâmide, oriundos de escolas como UFMG, Universidade Federal do Paraná (UFP), Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e Universidade Mackenzie, em São Paulo.

Estes, segundo ele, estão alinhados aos parâmetros mais contemporâneos da engenharia, que são o uso da metodologia BIM, a inteligência artificial e a internet das coisas, que constituem o que é comumente conhecido com engenharia 4.0.

Nas demais escolas do país, o modelo de ensino está ainda assentado, segundo Aécio Lira, na engenharia 3.0. Por isso é que ele clama por uma urgente aceleração do processo de transição do ensino de engenharia no país, do modelo 3.0 para o modelo 4.0. “Há uma lacuna que temos que, rapidamente, superar”, pondera Aécio Lira.

Luiz Machado, da UFMG, e Eduardo Mesquita, da Fumec, afirmam que escolas estão atentas aos novos cenários Fotos: Foca Lisboa/UFMG/Divulgação e SME/Divulgação

Em sintonia – “A gente está atento a tudo isso”, afirma o diretor da Faculdade de Engenharia e Arquitetura da Universidade Fumec, Eduardo Mesquita. Com sinal de que a instituição está procurando se atualizar, ele revela que o curso para a formação em Metodologia Bim já está sendo oferecido na pós-graduação e, no máximo em um ano, talvez já no segundo semestre deste ano, começará a fazer parte da grade curricular dos cursos de graduação. À Faculdade de Engenharia e Arquitetura da Fumec estão vinculados sete cursos de engenharia, o de Arquitetura mais os cursos de Design, Design de Moda e Ciências Aeronáuticas.

A Metodologia Bim permite que o desenvolvimento do projeto de engenharia seja acompanhado em tempo real em 3D. Para ele, trata-se de uma realidade da qual nenhuma instituição de ensino da engenharia poderá fugir porque é uma demanda que vem do mercado. “Não adianta fugir. Quem não acompanhar o mercado, vai ficar para trás”, afirma Eduardo Mesquita.

Na UFMG, que oferece 13 cursos de engenharia na graduação, em Belo Horizonte e Montes Claros, a evolução na direção da modernidade do ensino da engenharia se materializa na compra do sistema 3D Design &Engeneering Software, da francesa Dassault, que caminha na mesma direção da Metodologia Bim. Para o vice-diretor da Faculdade de Engenharia da UFMG, Luiz Machado, ainda é muito cedo para que o ensino de engenharia no Brasil esteja, como um todo, sintonizado com a chamada indústria 4.0. Por uma razão prática. É que a revolução preconizada pela indústria 4.0 é algo que ainda não aconteceu, diferentemente das outras mudanças ocorridas na história contemporânea, como a Revolução Industrial, do final do século 18 e início do século 19, que foi batizada depois que o evento ocorreu.

Para ele, a indústria 4.0 é um caso singular pois o termo foi cunhado antes do início de sua utilização. De qualquer forma, segundo ele, a UFMG está atenta à inovação. Tanto que, como ressalta, adquiriu a plataforma da Dassault, na qual o ensino estará ancorado. “A indústria irá trabalhar nesse padrão e será possível a gente trabalhar isso dentro da sala de aula”, afirma o vice-diretor da Escola de Engenharia da UFMG.

Diretrizes curriculares – Luiz Machado entende que a melhoria da qualidade dos cursos de engenharia pode vir pela inovação tecnológica, mas também pela adaptação das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) da engenharia aos tempos atuais. As novas DCNs foram fruto de um debate que iniciou-se em 2002 e terminou ano passado, quando entraram em vigor. Porém, sua implantação não acontecerá de uma só vez. As escolas terão três anos para se adaptar às novas regras, que prevêem, por exemplo, a flexibilização dos currículos, de tal forma que os engenheiros tenham uma formação mais holística e não apenas técnica, na área de exatas, como ocorre hoje.

“É uma orientação no sentido de passar a se formar um profissional com capacidades  técnicas, mas com um perfil também de cidadão, com um maior sentido e espírito social. Afinal, a engenharia serve par melhorar a vida das pessoas”, pontua o vice-diretor da Escola de Engenharia da UFMG.

Outra novidade das novas DCNs é o incentivo às atividades de extensão, área na qual a Escola de Engenharia da UFMG tem uma experiência que, em 2021 entrará, em seu sétimo ano, que é a extensão. O programa da UFMG ocorre nos meses de janeiro e julho e envolve um grupo de 40 alunos dos cursos de engenharia civil e engenharia ambiental. Sob coordenação do professor Valter Lúcio de Pádua, o grupo é levado para municípios carentes, onde os alunos ensinam atividades como construção fossa seca, implantação de captação de água de chuva e construção de muro de arrimo.

Receio – O receio de Luiz Machado é que a flexibilização abra caminho para que algumas escolas reduzam o nível de dificuldade que os alunos encontram nas disciplinas de exatas e que são a causa de boa parte da evasão que acontece nos primeiros anos dos cursos. Isso se dá, segundo ele, porque na engenharia, diferentemente do que acontece nas disciplinas de humanas, o degrau entre o que é visto no ensino Médio e na universidade é muito grande. “É um choque para o estudante”, afirma Machado.

Ensino remoto ainda gera polêmica

Com a pandemia do coronavírus, as escolas de engenharia foram obrigadas a também se adaptar ao novo cenário, introduzindo as aulas a distância. As particulares saíram na frente e ofereceram o primeiro semestre do ano passado remotamente. As federais saíram depois. Na UFMG, o primeiro semestre letivo de 2019 terminou em 30 de novembro, devendo o segundo semestre terminar em março próximo.

A Fumec foi uma das particulares que se adaptaram à realidade do ensino 100% remoto. Não foi, segundo Eduardo Mesquita, uma decisão fácil de ser tomada.“Tenho absoluta convicção de que ninguém estava esperando por isso. Fomos pegos de surpresa”, afirma Mesquita, que, entre os avanços alcançados no novo cenário, aponta a autorização concedida pela Prefeitura de Belo Horizonte para que os laboratórios pudessem ser reabertos para que os alunos (em grupos de no máximo quatro e seguindo o protocolo acordado com as autoridades sanitárias) pudessem ter aulas presenciais nas disciplinas onde o ensino remoto não atende às necessidades.

Pandemia eliminou, este ano, na Fumec aula prática sobre sondagens Foto: Tec Geo/Divulgação

Mão na massa – Como exemplo, ele cita matérias como “Técnica de materiais” e “Materiais de construção” em que o aluno tem que, literalmente, colocar a mão na massa para que possa apreender o conteúdo do que está sendo ministrado. Ele admite que, com a pandemia, o ensino híbrido irá avançar muito entre as escolas de engenharia, principalmente naquelas pertencentes a grandes grupos educacionais que têm ações negociadas em bolsas de valores.

Especificamente no caso da Fumec, ele afirma não ser esta a intenção. “Não consigo nem me imaginar como dono de uma empresa de engenharia que precisasse contratar um engenheiro formado 100% à distância”. Para ele, isso somente aconteceria se todo o mercado de engenharia validasse essa realidade, o que ele, hoje, acha difícil de acontecer.

Essa é a opinião, também do vice-diretor da Escola de Engenharia da UFMG. Para ele, o ensino à distância somente é válido em cursos EAD que já foram concebidos para serem dados remotamente, o que não é o caso das graduações, que segundo ele, têm que continuar sendo presenciais.

Para ele, o ensino à distância na graduação tem várias limitações, entre elas a dificuldade que o aluno tem de interromper o professor para tirar dúvidas no momento em que estará surgem. “Nada substitui o ensino presencial”, afirma. Para ele, a tecnologia das aulas remotas foi importante apenas como solução emergencial para o período de pandemia. “A escola não existe sem os alunos presentes. “Nada substitui o ensino presencial”, afirma, reforça Luiz Machado.

SME/Assessoria de Comunicação

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