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Mário Neto: “Sem ciência e tecnologia, vamos ser um país velho e pobre”

Enquanto países como China e Coreia do Sul avançam a passos largos na economia mundial, o Brasil anda a passos de tartaruga. Na opinião do ex-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de Minas Gerais (Fapemig) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Mário Neto, um dos gargalos do Brasil é o pouco apoio dado aos investimentos em ciência e tecnologia. Como exemplo, ele citou o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), que tem recursos anuais previstos da ordem de R$ 6 bilhões, mas tem uma parcela ínfima liberada.

Em 2018, dos R$ 6 bilhões arrecadados, o governo liberou, segundo ele, apenas R$ 800 milhões, dos quais menos de R$ 200 milhões foram para o CNPq. O que o governo faz, sistematicamente, de acordo com o ex-presidente do próprio CNPq, é contingenciar os recursos. Isso acontece, segundo ele, por duas razões. A primeira é a falta de um planejamento estratégico para a área de ciência e tecnologia. O segundo fator é a descontinuidade política.

Para Mário Neto, a mudança de rumos no apoio à ciência e tecnologia tem prazo para ser feita – até 2050, para que o país possa aproveitar o bônus demográfico. “Sem ciência e tecnologia, vamos ser um país velho e pobre, com pouca criança nascendo e pouca gente trabalhando. A hora é agora, para não ficarmos um país velho e pobre”.

Para falar sobre a importância do planejamento estratégico como política de estado, não de governo, mais uma vez, ele recorre à Coreia do Sul, onde afirma ter conhecido um ministro de ciência e tecnologia que estava há cinco anos no cargo e acabou ficando mais seis, ou seja, passou de um governo para outro. “Pode mudar governo, mas a política de ciência e tecnologia não pode ficar ao vento de qual governo está mandando. Esse é um problema, porque cada governo que entra quer começar do zero”, afirmou Mário Neto, em debate realizado na Sociedade Mineira de Engenheiros (SME)

Mário Neto defende que governo subvencione empresas que considere promissoras, a exemplo do que o governo coreano fez com a Hundai. Foto: Hundai/Divulgação

Subvenção – Também a exemplo do que fizeram os coreanos, Mário Neto defende que o governo subvencione empresas que considere capaz de trazer resultados importantes para o país. Não seriam, de acordo com o ex-presidente do CNPQ, empréstimos, mas recursos que, no Brasil são conhecidos como a “fundo perdido”, e que ele prefere definir como “subvenção econômica”. Trata-se, segundo Mário Neto, de um risco compartilhado com a empresa nascente, da mesma forma que o setor privado investe em startups. “Eles ficam olhando as startups e colocam dinheiro, pois sabem que vão recuperar o investimento mais na frente. Isso é o que o governo tem que fazer”, afirmou.

Mário Neto considera um avanço o número de mestres (50 mil) e doutores (21 mil) que o Brasil forma atualmente. Mas acha que existe um gargalho entre o mundo acadêmico e o setor empresarial. “Estamos formando só mestres e doutores acadêmicos”, afirmou o ex-presidente do CNPq, que propõe o direcionamento de parte da produção acadêmica para o mundo do empreendedorismo.

Ele reconhece que mudar essa cultura é muito complicado, mas cita como exemplo positivo uma iniciativa da Universidade Federal do Grande ABC, em São Paulo, onde havia uma linha de trabalho em que o aluno era obrigado a desenvolver projetos acadêmicos cujo objetivo era resolver problemas reais da indústria. Segundo Mário Neto, a primeira aluna que se formou desenvolveu uma película que diminuía o barulho gerado pelos ônibus e caminhões da Mercedes-Benz. “Ela foi brilhante”, afirmou.

Inovação – Se não houver uma mudança no rumo da política de ciência e tecnologia, permanecerá, segundo Mário Neto, o descompasso entre o peso da economia brasileira no mundo e sua presença, por exemplo, na área de inovação. O Brasil, segundo ele, além oscilar muito nos rankings internacionais, está muito mal classificado para um país cuja economia está entre as dez maiores do planeta.

Em 2011, o Brasil estava na 47ª posição no Índice Global de Inovação. Nos anos seguintes, experimentou quedas sucessivas de um ano para o outro, chegando, em 2017, na 69ª posição. Em 2018, voltou a subir algumas posições, chegando à 54ª posição. Porém, segundo Mário Neto, em 2019, o Brasil voltou a piorar, passado para o 65º posto. “Nós somos a nona economia do mundo. Por isso, temos que estar entre os dez primeiros em tudo”, afirmou o ex-presidente do CNPq.

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