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Opinião: O inesperado habitat do ser urbano em movimento – Nova Metrópole Sec XXI

Por Joel Campolina

Investimentos públicos maciços em nossas metrópoles, destinados a infraestruturas suportes para alavancar modais de mobilidade urbana, deveriam otimizar resultados de melhorias permanentes não só para os fluxos viários, mas também para a mobilidade de pedestres.

O lugar do ser urbano contemporâneo precisa ser entendido dinamicamente e não como habitante de lugares específicos da cidade. Este individuo, na sua idade ativa, vive a maior parte do tempo imerso numa rede de lugares interconectados e de apropriação transitória: moradia, deslocamento, trabalho ou lazer.

Na atual gestão da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte – PBH, no período 2017/2021, um volume de recursos públicos da ordem de 3,7 bilhões de reais será aplicado em intervenções no tecido urbano da capital, no âmbito da modernização e melhoria do transporte público e mobilidade urbana (Dados do Observatório de Mobilidade Urbana de BH e do Portal da Transparência da PBH). Em economias de escassez, como é o caso das nossas grandes metrópoles, parece tornar-se premente uma reflexão mais cuidadosa sobre a importância de otimizar o aproveitamento de uma parcela destes investimentos no planejamento inovador e cuidadoso para implantação de circuitos urbanos desenhados para deslocamentos a pé efetivamente caminháveis, acessíveis e sustentáveis. Segundo dados de pesquisa da BHTrans de 2014, cerca de 34,8% do total de deslocamentos diários da população local se faz pelo modal a pé.

O ser urbano sec XXI, visto como habitante nômade de uma rede integrada de lugares de apropriação semitransitória, vive parcelas definidas e significativas do seu tempo, cria laços de afetividade, ciclos de convivência e fragmenta sua percepção em lugares diferenciados. No lugar moradia, vive uma boa parte do seu tempo cotidiano. Nos lugares deslocamento, se apropria do seu trajeto para qualquer outro destino. No lugar trabalho vive e exercita sua contribuição cidadã produtiva. Lynch, Kevin em seu clássico e consagrado trabalho “The image o the city”, 1961, já via a totalidade da cidade como arquitetura e considerou seus componentes em movimento, particularmente o ser urbano e suas atividades, como sendo tão importantes quanto suas construções e elementos estáticos. Processos convencionais de planejamento são repensados, novas metodologias e conceitos alternativos são incorporados no redesenho de cenários urbanos contemporâneos.

Em muitos casos, estes espaços se fundem ou se entrelaçam como lugares de sociabilidade que se interconectam através da chamada infosfera, uma camada de informação que envolve o planeta abaixo da atmosfera – supostamente acessível a todos. Este neologismo foi originalmente atribuído ao filósofo italiano da informação Luciano Floridi, em “The Fourth Revolution: How the infosphere is reshaping human reality”.

E como arquitetos e urbanistas sec XXI podem contribuir para melhorar a qualificação destes cenários? Uma das alternativas propostas por este autor data de 2012 e consta no capítulo – Cidade Sustentável, tópico 43 – do programa de governo do segundo mandato do ex-Prefeito Márcio Lacerda. Esse item, retomado e aperfeiçoado, está em consideração por nosso atual Prefeito Alexandre Kalil. O objetivo é introduzir o conceito de passarelas urbanas aéreas multifuncionais mais amigáveis, largas e com espaços verdes, como alternativas para atravessamentos seguros para pedestres.

Travessias em lugares urbanos onde as rupturas socioambientais tenham ocorrido mais drasticamente, diferentemente das passarelas convencionais, induzirão a continuidade natural das interconexões sóciofuncionais pré-existentes, respondendo a demandas das próprias comunidades impactadas.

Num escopo mais amplo, soluções derivadas deste conceito poderiam vir acopladas em viadutos veiculares já implantados, ou melhor ainda, quando concebidas na época dos projetos executivos para implantação da própria via veicular e dos equipamentos complementares, em certos pontos críticos estratégicos ao longo dos eixos expressos e grandes avenidas.

O nosso projeto da “Passarela Boulevard Multifuncional”, de 2013, sobre o eixo expresso BRT_MOVE da Avenida Antônio Carlos, reconecta os dois lados dos bairros Lagoinha e São Cristóvão na altura do conjunto habitacional IAPI. A travessia voltará a ser feita mais amigavelmente por um percurso ajardinado e arborizado, larguras variáveis em função das características urbanísticas do lugar. Numa das extremidades de acesso foi previsto um pequeno núcleo multifuncional, com lojas de bairro, posto municipal de serviços e revitalização dos espaços verdes das áreas de contato.

Outra contribuição nossa, mais recente, trata-se do conceito de circuitos a pé, caminháveis, acessíveis e sustentáveis, interligando polos atratores intraurbanos especialmente significativos. Este é o caso do nosso projeto-proposta de estudo de viabilidades-custos-benefícios para o Circuito a Pé Centro-Sul, universalmente acessível e sustentável, interconectando o polo Praça da Rodoviária ao polo Conjunto Cultural Praça da Liberdade (passando pelo Parque Municipal) e ao polo Praça da Assembleia (passando pela Praça da Savassi) e, de novo a Praça da Rodoviária (passando pelo Mercado Municipal).

Esse estudo já foi entregue e está em fase de considerações das atuais gestões da BHTRANs, da Belotur e do prefeito Kalil. Fazem parte deste tipo de planejamento e projeto, o equacionamento de uma sequência contínua de caminhos, dimensionados para permitir, estimular e facilitar o deslocamento de todos os tipos de pessoas, incluindo as com necessidades especiais (cadeirantes, cegos, idosos, gestantes, etc.) definindo percursos com rampas máximas de 8,33%, adotando pavimentação adequada, iluminação apropriada, sinalização específica, vegetação complementar e contando com uma rede de estações-conforto, equipadas com serviços de apoio, sanitários acessíveis, etc. As distâncias a serem percorridas entre cada polo atrator terão de ser dosadas, limitando percursos inter polos em torno de 2 km. Ao longo dos caminhos, parklets pré-existentes poderão ser utilizados como pontos de descanso adicionais.

Constata-se que a maioria das passarelas aéreas padrão, para circulação de pedestres, foram implantadas para resolver prioritariamente conflitos do fluxo veicular dominante, projetadas como trajetos alternativos muito pouco, ou nada, amigáveis, não pensados como lugares urbanos, nem priorizando o conforto dos pedestres como protagonistas, como deveriam.

Cabe aos arquitetos e urbanistas, em consonância com os diversos atores e especialidades convergentes neste campo, contribuir mais efetivamente na origem dos planejamentos de novas intervenções de mobilidade urbana. Novas soluções alternativas, justificáveis em termos de custos e benefícios sociais e ambientais, respeitando fluxos locais pré-existentes do ser urbano pedestre, precisam ser implementadas concomitantemente a melhoria do fluxo metropolitano do tráfego veicular.

Joel Campolina – Arquiteto e Urbanista

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