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Seminário discutiu os desafios para a inovação

Inovação é palavra-chave para empresas já instaladas que pretendem fazer um upgrade em sua atuação. É também a senha com que jovens empreendedores planejam abrir o mercado para seus projetos. Só que entre a intenção e a prática, a distância pode ser longa. Os dois lados costumam acreditar no sucesso instantâneo e desconhecem que são muitos – e, muitas vezes, árduos – os caminhos a serem percorridos até que resultados mais palpáveis sejam alcançados. Mostrar um pouco quais são esses desafios foi o objetivo do seminário “Fazendo a inovação acontecer”, promovido pela Sociedade Mineira de Engenheiros (SME).

Como não existe milagre em inovação, Constantino Seixas Filho, CEO da Accenture Brasil, acha importante as empresas contratantes e os empreendedores que estão à frente de startups aceitarem uma ideia que costuma não ser confortável nem para um lado nem para o outro: a de que nem sempre se acerta da primeira vez. “Às vezes, são necessárias várias tentativas para se ter sucesso”, afirma Constantino Seixas.

Ele cita como exemplo o alemão Von Braun, cientista que foi responsável pelo desenvolvimento dos foguetes que, entre outros feitos, acabaram levando o homem à Lua. Até que os primeiros foguetes pudessem deixar o chão com sucesso, ocorreram inúmeros acidentes, lembra Constantino. Ele, entretanto, reconhece que nas empresas, essa ideia – o do erro como componente da inovação – costuma não ser muito bem aceita.

Quem também chamou a atenção para o risco foi o gerente do Centro de Inovação Tecnológica (CIT) do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Ricardo Aloysio. “A inovação tem o risco de não dar certo”, afirmou Aloysio, que recomendou àqueles que querem investir em projetos nessa área, algo trivial: “Tem que testar, testar, testar. E rápido”. Além de reconhecer que a inovação oferece a chance de sucesso, mas também de riscos, ele recomenda que os empreendedores estejam sempre atentos às oportunidades. “É preciso alimentar as expectativas”, disse o coordenador do CIT/Senai.

 

O sucesso da inovação passa também – como a própria palavra já indica – pelo desenvolvimento de produtos e processos que não existam. Um exemplo vem da Companhia Brasileira de Mineração e Metalurgia (CBMM). A empresa tem jazida em Araxá, no Triângulo Mineiro, é a maior produtora de nióbio do mundo. No entanto, apesar de ter mercado cativo, está abrindo um mercado para seu produto que não apenas o da mineração e siderurgia.

Diversificação – Com a japonesa Toshiba, a CMBB está desenvolvendo alternativas para o uso do nióbio como componente de baterias. Para isso, participou da montagem, no Japão, de um centro de pesquisas com essa finalidade. De acordo com o gerente de Produção da Companhia, Adriano Porfírio Reis, no mundo da inovação, o tempo corre mais rapidamente do que se imagina. Especificamente no caso do produto que está sendo desenvolvido com os japoneses, a CBMM e a Toshiba não são os únicos. “Há 300 outras instituições pesquisando baterias no mundo”, observa Adriano Reis.

Outra empresa que corre contra o tempo é a indústria de aviões Embraer, que investe pesado na qualificação de seus engenheiros. Estes, além das 3,5 mil horas de aula que têm na universidade, ganham outras 2,5 mil nos programa de qualificação da própria empresa. A diferença é que enquanto a formação normal se dá em cinco anos, as 2,5 mil horas adicionais são dadas em um intervalo de tempo cinco vezes menor: de um ano. “O mercado exige isso”, afirma o engenheiro Gregório Fonseca, um dos coordenadores do escritório de desenvolvimento de projetos que a empresa tem em Belo Horizonte. No escritório trabalham cerca de cem engenheiros.

Ele também considera primordial que o que for apresentado como inovação possa realmente ser assim definido. Como exemplo, cita, no caso da aviação, propostas que possam reduzir o consumo de combustível. Se a novidade vier a reduzir o consumo em 1%, trata-se, segundo ele, de algo muito importante, pois significará a redução de custos em um mercado extremamente competitivo. “Pode ser um diferencial importante”, afirma Gregório.

Propostas sobre inovação foram discutidas durante seminário na SME Foto: SME/Divulgação

Agilidade – “As startups precisam ser simples e ágeis. Senão, estão mortas”, afirmou Márcio Mariano, diretor da startup Goldratt. No seminário, ele relatou o caso de uma empresa que, para a contratação de sua startup, apresentou uma lista de exigências que ocupava 31 páginas. Ele contou que, ao ver o documento, procurou a empresa. Esta reconheceu que era “tradicional e burocrática”, mas não havia muito como fugir das regras colocadas para a contratação.

Pedro Villaça de Almeida, diretor do Founder Institute, reconhece ser difícil para uma empresa tradicional acreditar nas propostas de startups que prometem retorno financeiro mirabolante. “Não é preconceito. Muitas vezes, acreditar naquele jovem é difícil para o gestor que está há 40 anos na empresa e já ouviu inúmeras promessas e, às vezes, até apostou em algumas delas, mas não teve o resultado prometido”. Para isso, ele recomenda que os empreendedores de startups procurem se abrigar em alguma aceleradora. De acordo com Pedro Villaça, se o jovem empreendedor se reunir tendo na retaguarda uma aceleradora, o gestor irá escutá-lo, porque sabe que ele não está sozinho.

É o que faz, por exemplo, em Minas, o Fiemg Lab, o acelerador de startups voltado para atender os interesses da indústria. “Nosso objetivo é facilitar e conectar o universo de inovação e empreendedorismo”, afirma Marcelo Bigão, gerente do Fiemg Lab. Nele, estão sendo aceleradas 50 startups, das quais 25 são de fora de Minas, o que é importante, segundo Bigão, para a troca de experiências entre startups de Minas e as de outros estados. Com isso, segundo ele, consegue-se reduzir a chance de risco tanto para as startups quanto para a indústria.

Márcio Mariano chama a atenção para a necessidade de se quebrar outro circulo vicioso que cerca os ecossistemas de inovação: o de que toda iniciativa na área tem que ser barata. “Não é verdade. Tem que ser uma solução que entrega valor e gera resultado para o cliente e não necessariamente é a mais barata”, afirma Márcio, que, da mesma forma, critica aqueles que defendem que todo projeto piloto teria que ser a custo zero. “Fiado só amanhã. Essa prática de se querer sangrar a startup é um tiro no próprio pé em termos de inovação, pois não deixam que as startups tenham vida própria”, afirma ele.

Inovação – A Vetor AG é a face da Andrade Gutierrez na área de inovação. Trata se de uma aceleradora de startups por meio da qual a empresa faz chamadas externas e escolhe os projetos que mais se adequam às suas necessidades.  Em 2018, foram recebidas 150 inscrições, número que surpreendeu a empresa. Destas, sete foram selecionadas: Construcode, Lesense, Rio, Levitar, Controller, Mapi e Magalhães Gomes. Este ano, o número de startups inscritas subiu para 250, tendo sido selecionadas outras nove: Sunew, 4Mart, Agililean, Laboratório de Soldagem da UFMG, Novidá, Spectrageo, Geoepic, Recrutasimples e SGP.

A parceria com a Construcode permitiu, por exemplo, que, com o uso de QR Code, os projetos de engenharia pudessem ser acessados em tempo real nos canteiros de obras. A Magalhães Gomes levou a tecnologia da magnetização da água utilizada na produção do concreto, o que permitiu uma economia de 4% em seu custo de produção. Com a Levitar, a Andrade Gutierrez passou a utilizar drones para fazer o lançamento de cabos-guia de energia em torres de transmissão. O processo reduz custos, mão de obra e riscos, além de contribuir para o meio ambiente, já que não é necessário mais desmatar, como era feito antes. A Mapri levou para a Andrade Gutierrez a tecnologia da automação da medição das obras, com drones e softwares.

A aceleradora da Andrade Gutierrez é a Vetor AG, que está instalada em São Paulo, no mesmo edifício sede da empresa e ao lado das áreas de engenharia e de suprimentos. A localização naquele local, segundo o diretor de Planejamento Estratégico da Andrade Gutierrez Engenharia, Guilherme Pinto, foi proposital, para que os coordenadores de área da companhia pudessem atuar como uma espécie de mentor das starups. “Você junta a experiência do que é novo com a agilidade que veio dessa turma que está cheia de ideias”, afirma Guilherme Pinto.

Por seus projetos na área de inovação, a Andrade Gutierrez recebeu, este ano, o prêmio “Inovação Brasil”, dado pelo jornal “Valor Econômico”. Para Ricardo Sena, o prêmio é o coroamento de um trabalho que vem sendo desenvolvido há pelo menos cinco anos na empresa, que, como ressalta, praticamente inaugurou a aplicação da inovação no setor de engenharia brasileiro. No próximo dia 11, Ricardo Sena recebe, em solenidade na SME, o prêmio “Engenheiro do Ano”.

Onda – Para Pedro Villaça, a inovação é uma onda que veio para ficar e melhorar a vida das pessoas. “A tecnologia não vai engolir ninguém. Pelo contrário, vem para auxiliar as pessoas”. Nesse sentido, ele considera que a próxima onda da inovação está na biologia, no combate às doenças, na melhoria da alimentação, junto com a inteligência artificial, “que vai fazer pelo nosso cérebro o que a revolução industrial fez pelos nossos braços. A tecnologia veio para melhorar a qualidade de vida de todo mundo. Cabe a nós abraçar, promover e supervisionar, para que isso seja feito de forma saudável. A tecnologia é um tsunami. É melhor a gente aprender a surfar no tsunami do que achar que vamos construir um muro para conter esse tsunami”.

 

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